“Acordei a meio.”

A meio do corpo, a meio da alma, a meio de tudo o que era visível e invisível.

Não era inteiro o meu sorriso, nem inteira a minha vontade. Acho que por vezes é assim: O corpo acorda, mas o restante fica a dormir, e nós fingimos que é igual.

Não temos de ser perfeitos todos os dias, mas em todos os dias poderá haver algum instante de vislumbre de uma tentativa efémera de perfeição.

Tentei ser completo: Bebi o café com duas mãos, como se de um ritual se tratasse, abracei o dia com os dois braços, numa forma verdadeiramente sentida e falei com as palavras todas, sem balbuciar, sem ter a visão toldada pelo pensamento inerte matinal.

Mas ainda assim faltava qualquer coisa, por certo uma parte que ficou esquecida algures entre o sonho e a realidade.

E aí entendi: talvez o erro esteja em querer ser inteiro todos os dias.Talvez haja dias feitos mesmo para a metade. Para a pausa.Para o quase. Porque é no quase que mora o que ainda podemos ser.

Hoje acordei a meio. Mas talvez amanhã acorde inteiro, inteiro de alma e coração, ou talvez perceba que metade de mim já é realmente muito.

Autor: Paulo Freitas

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