
Cláudia, das janelas antigas de Sines, avistaste primeiro o mar que me ensinou a ser.
Eu, que cheguei depois,escuto ainda o rumor insinuados das tuas palavras misturado ao vento que sobe pelo pontal, como se cada frase tua, fosse uma onda a regressar ao seu próprio princípio.
Tu sabias, muito antes de todos,que o silêncio pesa mais que a pedra,e que a alma é um barco que ninguém vê partir durante a fria noite.
Ensinaste, mesmo ausente,sem deixar a barreira do tempo perturbar, que a coragem não faz ruído,que o amor é um farol cansado,e que a mulher, tantas vezes calada, fala muito mais fundo que o próprio oceano profundo.
Eu escrevo em parte, porque tu escreveste. Escrevo porque a tua sombra leveainda anda pelos lugares antigos de Sines que já não existem ou estão irreconhecíveis e pela maré que volta sempre,como quem guarda a memória dos que partem. Se por algum mero acaso, um verso meualgum dia tocar a sombra da tua luz,que o mar o conduza até ti, como algo sereno, inteiro, verdadeiro. Que o vento murmure entãoque nasceu do mais profundo respeito,da mais limpa admiração,e da gratidão que não conhece fronteiras metafísicas.
A ti,senhora das marés eternas, primeira voz que ensinou a nossa terraa dizer o que sente.