
Conto uma história onde o tempo não nos estraga, só nos muda. Onde as estações passam por nós com a mesma calma com que passam pelos jardins: Sem violência, sem castigo, apenas com o seu jeito inevitável e as lágrimas da chuva na calçada.
Eu não quero falar de dor, nem de culpas, nem de quem falhou primeiro. Quero falar daquele momento raro em que o coração aprende a largar sem se vingar. Quando já não se pede explicação ao passado, porque se percebe que algumas coisas já não se resolvem, que somente se aceitam. O que houve entre nós foi verdadeiro. Por isso não precisa de ser reescrito com amargura. Há amores que não acabam por falta de sentimento, acabam porque a vida cresce dentro de nós e muda a forma como cabemos um no outro.
Hoje, eu não te guardo ressentimento algum. Guardo-te respeito. Igualmente uma ternura quieta, daquelas que não fazem barulho, mas que ficam. Desejo-te todo o bem, com sinceridade. Porque desejar mal é continuar preso, e eu quero estar livre. Livre de nós, sem negar o que fomos. Livre do que podia ter sido, sem o transformar em prisão.
Se um dia nos cruzarmos, talvez sorríamos. Sem drama. Sem peso. Apenas com a lucidez bonita de quem já aprendeu que o tempo não volta, mas também não precisa de regressar para ter valido a pena.
13.11.1999