
Havia naquele lugar uma nave. Pelo menos era assim que eu a via. Num qualquer sábado de manhã.
Os adultos passavam e viam ferro, parafusos, uma estrutura parada no meio da vila. Eu via partida para outro lado longínquo. Via mundos imensos. Via o impossível à distância de dois passos pequenos e um pequeno coração inteiro.
Subia para lá como quem entrava num segredo. De repente, já não era a rua, nem o jardim, nem o dia igual aos outros. Era o universo. Eu, tão pequeno, explorava galáxias invisíveis, inventava destinos estrambólicos e falava com seres que meramente existiam porque eu ainda sabia sonhar sem pedir licença ou por favor.
Há memórias que ficam desta forma, silenciosas por fora, imensas por dentro. Quando hoje me lembro desse lugar, não é a nave que me comove. Sou eu. O menino que ali brincava como se o mundo fosse infinito e coubesse todo dentro da sua imaginação que não parava de funcionar, como se fosse o infinito do universo.
Talvez a nostalgia seja isso, Voltarmos, por instantes, ao lugar que já não existe onde fomos felizes, sem saber que estávamos a viver uma saudade futura de uma personalidade adulta.